A VELHINHA

Desculpem, o texto é grande.

Dona Pequena nasceu e foi criada no sitio entre dezenas de irmãos que sobreviveram à falta de cuidados na infância. Não foi pobre, mas a ignorância “mater” fez com que entendesse que filhos se criam na base da porrada.

Cresceu, casou, apanhou do pai, dos irmãos e do marido. Não há uma alma feminina que não endureça após anos de violência doméstica, calada. Tempos em que problemas desse tipo se resolviam dentro de casa, sem que vizinhos e estranhos soubessem.

De suas sete gestações, cinco vingaram e sozinha os criou, a base de pancadas, claro, como estava acostumada. Viuvou cedo, por conta da bebida. Formou um por um, entregou as filha a bons homens, e os filhos a “pestes” como costumava chamar as noras.

Mas a velhice trás consigo alguns percalços que inevitavelmente atingem boa parte da população idosa, a esclerose.
Para os familiares a doença atinge mais do que a memória e a percepção de seus velhinhos, atinge a dignidade e abala o eixo familiar.

Dona Pequena após anos cometendo pequenos deslizes de memória, esquecendo panelas incendiadas na cozinha, escondendo pagamento em lugares nunca descobertos, foi diagnosticada com esclerose pelos médicos. Não Alzheimer, esclerose mesmo.

Os filhos, de bom coração, resolveram dividir-se nos cuidados com a mãe. Claro que as noras sentiram-se ultrajadas de terem que hospedar uma velha irritante, repetitiva e nos últimos tempos aleijada, por que Dona pequena, enfraquecida pela doença acabou numa cadeira de rodas.

Bons anos se passaram com ela indo de casa em casa, tendo suas “férias” em cidades diferentes, com pessoas sempre a serem apresentadas. Esquecia de todo mundo e cada vez que via um filho, fazia festa se apresentando como se nunca o tivesse visto. No inicio todos se sentiam mal com isso, alguns até choravam, mas aos poucos o que era drama, virou piada. As crianças brincavam com a falta de memória da avó, da bisavó, e assim por diante.

Da mesma forma que a doença atinge o idoso fazendo-o vitima de uma memória inexistente, o faz regredir também a fase da infância, e pessoas com esclerose viram pequenos travessos.

Uma das noras odiadas de Dona Pequena a hospedou pelo que seriam três meses, combinado com os outros filhos. Mesmo não se lembrando da moça, Dona Pequena com flashs de lucidez a xingava, olhava feio e fazia caretas. Numa manhã, irritadíssima com a cantoria repetitiva de dona Pequena, a nora a colocou na cozinha, fechou a porta e lá deixou por horas até que percebeu o silencio. Bem, alem de ter cansado de cantar, dona Pequena, munida e uma fralda suja de cocô, fez pequenas bolinhas ( em forma de brigadeiros) e atirou por toda a cozinha. Quem viu pode garantir, que não havia um canto de parede que não tinha um cocô pregado. Vingança n° 1.

Mandada para a casa de outro filho, Dona Pequena ficava insatisfeita com o vai e vem de pessoas na casa. Neste lugar a deixavam perto da televisão por que achavam que ela se distraia, sem saber que aquilo era uma tortura, por que filmes de bang-bang, por exemplo, a faziam desviar de balas aos gritos de medo. Numa manhã, ouve-se uma explosão na sala, e Dona pequena desaparecida dentro de uma nuvem de fumaça. O que havia acontecido?

Ao ventilarem a casa viram a podre sentada ao lado da TV com os olhos arregalados de pavor, e um copo vazio na mão. O liquido? Bem esse tava todo dentro da TV. Ela cansada do barulho, despejou todo o suco dentro da aparelho. Buuuuummmm...Vingança n°2.
Reunião entre filhos e a decisão que ela não mais viajaria, moraria daquela data em diante com uma das filhas, a mais velha, em quem Dona Pequena mais bateu na infância. Todos contribuiriam com dinheiro para mantê-la. A primeira indicação dos médicos fora um colchão d água para melhorar as dores lombares da probrezinha.

Filhos reunidos no quarto num dilema crucial de como encher a cama. Seguidas as instruções, tiraram Dona Pequena da cama, deitaram-na ao lado, agasalhada por conta do frio cortante e com uma mangueira acoplada ao colchão puseram em pratica o plano.

E ali ficaram conversando, rindo, e lembrando peripécias de Dona pequena. Não perceberam que alem de estar cheio, o colchão vazou, silenciosamente, sobre Dona Pequena. A pobre estava deitada no chão encharcada, num frio absurdo. Gritos de desespero...Peguem a mamãe e coloquem na cama!!!

Missão cumprida. Só não sabiam que camas de água tem que ser bem forradas. Colocaram-na sobre o que seria uma barra de gelo. Dona Pequena parecia um pedaço de madeira quando falaram com ela. Estava roxa, dura, e tremendo. Não morreu de hipotermia, por que realmente não era sua hora.

Judiou da filha que a acolheu. Cuspia remédios na sua cara. Jogava comida nos vasos de plantas. Apertava o Poodle da família à beira do estrangulamento. Acendeu um fósforo na cortina, tirou uma fileira enorme de tacos do chão da sala com os pés. Cantava por horas a mesma frase, gritava, chorava, não dormia a noite, esbofeteava a filha no banho, puxava seu cabelo e por aí a fora. Ao ponto dela ficar enlouquecida e pedir que levassem a velha embora.

Numa manhã sentada na cozinha de castigo, como faziam quando ela aprontava, Dona Pequena chamou a filha e com os braços abertos pediu um abraço. Disse que a amava, e que sentia falta dela. A moça emocionada, abraçou Dona Pequena, chorando pela reação inesperada, quando sentiu um cheiro ruim. Afastando-se percebeu que a mãe estava com os braços sujos de cocô, e que ao abraçá-la, a velhinha se limpou em suas costas. A filha sentou e chorou copiosamente por horas. O único afago de sua mãe fora um abraça cagado.

Dona Pequena faleceu 2 dias depois. A filha emocionada no enterro contou pra todos que a mãe a acariciou antes de morrer, só omitiu a parte do cocô.


Ter um velhinho doente em casa não é fácil. O amor tem que vir acima de tudo e em qualquer circunstância. Paciência e dedicação nos faz ao final da jornada ter a consciência de que tudo foi feito por ele, e que não há motivos para o remorso.


Abração e bom dia.

10 comentários:

Mylla Galvão disse...

Rafa,

Estou em dívida com vc... Assim que o meu pagamento sair, mando o livro para vc, pq ainda não encontrei nem um título interessante...

Qto ao post... Ele é muito engraçado e peço licença para imprimi-lo para passá-lo para meus alunos.
Se por um lado é engraçado, por outro é triste...
Minha mãe faleceu ano passado, com mal de alzheimer e ela era como D. Pequena...
Me emocionei mo final...

Mto lindo! Adorei!

bjo

Andrea Galvez disse...

Rafael...

Post enorme?? estava aqui me deliciando com um texto tão bom!Quantas donas Pequenas não temos por este mundo afora não é?Ainda ela pôde se vingar de alguma forma...rs, mas e outras tantas que nem isso pode, não tem como se defender...
São vítimas de violência familiar ou em casas de repousos.
Muitos esquecem que envelhecerão...

Penso assim, somos tão passageiros e uns tem a felicidade de viajar por esta vida lembrando e vivenciando tudo em sua lucidez permanente, outros infelizmente não tem esta mesma sorte.

Bom dia aí!!

Abrcs*

Dama de Cinzas disse...

Nossa! Eu nunca passei por isso e morro de medo de passar, tanto na posição de cuidadora, como no lugar da Dona Pequena... Acho uma situação muito triste, não lido bem com a velhice em todos os aspectos. Não sou a pessoa mais indicada para analisar a situação... rs... Só sei que me angustia... muito...

Beijocas

Atitude: substantivo feminino. disse...

Ai, tadinhaaa
Lembrei da minha vó.
Pelo menos ela teve a chance de algumas vingancinhas.

Marcos Campos disse...

A verdade com uma boa dose de humor...não deve ser nada fácil mesmo, tem que haver um grande amor sem duvidas!
Ótimo texto Rafa!
Ah! E quanto a pedalar, fiu até Jaguariuna sim, mas como moro em Barão, economizei um pouco de caminho...
Abraço!

Andrea Pagano disse...

Rafa,
História triste desta velhinha...essa doença é terrível, porque se não temos as lembranças, o que nos resta?
Tenho uma tia que esta lutando muito por causa do Alzheimer, mas ainda esta no começo...
Também difícil lidar com isso no dia a dia, porque na verdade o idoso torna-se um bebê, porém grande e teimoso...
Parabéns pela forma tão verdadeira e emocionante que relatou tudo isso, pois faz nós refletirmos, enquanto jovens sobre o nosso futuro e o futuro de nossos familiares!
Bjs

Cris disse...

Nem sempre a velhice vem colorida!
Costumo dizer que a velhice dos meus avós foi colorida, foi linda, foi cheia de vida, sabedoria. Contudo, conheço inúmeras pessoas que tiveram um "final" difícil, pesado. Não deixa de ser um fardo essa postura entre o amor, a gratidão e a realidade; como da Dona Pequena. Dividir essas tarefas é realmente um ato de amor.
E de extrema paciência.

Sinceramente, não sei se faria isso por minha sogra, mas com certeza faria por minha mãe. Alguns laços são nós atados por toda uma eternidade; outros, não!

(Faria, faço e farei por qualquer animal!!!!!)

beijos

Rafa disse...

Muito difícil a situação, ainda maos quando há tantas mágoas passadas. Abç!

[Farelos e Sílabas] disse...

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Sinto-me suspeito pra falar de idosos, de gente que carrega nas cãs a experiência que ainda não tenho. Cuidei de meu querido pai até o último fôlego, literalmente. Depois, como que tendo recebido uma Missão, e talvez o seja, desde setembro do ano passado passei a cuidar de uma idosa que a vida toda morou aqui perto de casa, porém, inválida, sem filhos ou parente algum, foi abandonada por todos. Deprimiu-se, sentiu-se inútil e tentou o suicídio. Hoje, quem cuida dela sou eu! E, de quebra, acabei me envolvendo com idosos de uma forma geral. Nesta quinta-feira já separei umas horinhas e ao lado de uma amiga que também ama idosos. Faremos nossa habitual visitinha aos vovôs de uma instituição geriátrica que descobrimos.

Como aprendo com mães e pais reflexo de “Dona Pequena”! Eles são meus anjinhos...

Quanto ao texto, voltarei quando a emoção passar...

Abração pra dentro dos significados, Rafa!

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Arsênico disse...

História incrível... e minha família passou por um fato semelhante ano passado... foi com meu avô... aquele que era odiado por toda a família por conta do passado...

Sofremos... Mas também o amamos até o último dia de vida dele!!!

E realmente... o juízo a DEUS perntence... nossa parte nós fizemos!!!

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xD