MINHA TV BRASILEIRA 3° PARTE

Quando Isaura sofrida, maltratada, pendurada num tronco e sendo açoitada por Leôncio gritou em Chinês que a libertassem, pode-se concluir que a telenovela brasileira havia ganhado o mundo. Os horizontes para as produções brasileiras atravessaram o planeta e nas mais longínquas aldeias e cidades do mundo se ouviu Lucélia Santos clamar aos céus por liberdade. A escrava Isaura ainda é considerada a novela mais vendida pela emissora.

A teledramaturgia nacional é o que temos de melhor. O cinema hoje desponta numa nova era, mas o que se produziu de novelas, minisséries, seriados, especiais, teleteatros e tantas outras formas de ficção levou nossa TV ao mérito de uma das melhores do mundo.

Sempre que falo sobre isso, menciono uma pessoa responsável por esse sucesso: José Bonifacio de Oliveira Sorinho, o Boni. Ele na idealização de uma TV de primeira, com carta branca de Roberto Marinho, produziu nas décadas de 70, 80 e parte de 90, o que de melhor se tem em novelas. É visível a decadência da teledramaturgia da Globo após seu afastamento.

Foram bons anos até que novas novelas se destacassem. Hoje as produções ganharam investimentos de cinema, com grandes cenários, externas em outros países, temas que fazem o publico debater, virar conversa de ponto de ônibus, de salão de beleza, de discussão em família.

Silvio de Abreu destacou-se com seus pastelões às sete da noite, depois no horário nobre fazendo-nos rir, com suas chanchadas sempre bem escritas. Impossível esquecer Dona Armênia, e a celebre cena de Fernanda Montenegro e Paulo Autran em “Guerra dos Sexos”. Até suas vilãs, como Laurinha Figueroa estão cravadas na memória televisiva.

Gilberto Braga despontou com a adaptação de Escrava Isaura, mencionada acima, e logo depois com Dancing Days, que revolucionou o estilo de folhetim na TV. Suas novelas sempre sofisticadas, com personagens milionários, vilãs elegantes em cenários chiques, talvez possa ser considerado um dos melhores do gênero. Existem personagens imortais, mas sua Odete Roitman será infinitamente lembrada. Já se passaram 22 anos e ela continua sendo a mais perversa de todas. Para quem tem o canal Viva, a partir de 04 de Outubro as 23:45 hs, teremos toda a sordidez de Maria de Fátima e o show de talento de Renata Sorrah, Regina Duarte, e grande elenco. Nenhum outro autor teve o luxo de composições particulares de Tom Jobim para suas novelas.
Dias Gomes foi o precursor da novela fantasia. O autor que criou os personagens mais folclóricos da nossa TV. Em o Bem Amado, primeira novela colorida, Odorico Paraguaçu queria de toda forma inaugurar seu cemitério superfaturado, mas ninguém na cidade morria. Sua pilantragem chegou a tal cumulo que ele mesmo no fim da trama, assassinado por Zeca Diabo, inaugura o tão sonhado cemitério. Roque Santeiro, com gritos da Viúva Porcina (talvez o melhor personagem de Regina Duarte em todos os tempos) numa cidade decrépita cheia de políticos corruptos chegou ao cumulo de atingir quase 100% dos televisores ligados em seu ultimo capitulo. Algo inimaginável hoje em dia. Dias Gomes também fez Saramandaia, com personagens surreais, como o homem que tossia formigas, a mulher que explodiu de tão gorda e tantos outros , fez dele um ícone copiado até hoje.
Janete Clair pode ser considerada a mais criativa autora de sua época. Criou. Nunca se importou com opinião publica. Se o mocinho tinha que morrer no fim...morria. Carlão de “Pecado Capital” que o diga. Por mais adorado que fosse pelo publico, no ultimo capitulo morreu, após uma saraivada de balas.

Manoel Carlos e Benedito Ruy Barbosa, foram responsáveis por grandes trabalhos na TV. Novelas belíssimas. O triste foi que perderam a mão com o tempo. Os últimos trabalhos de ambos não empolgaram o publico, e podem entrar na lista das piores novelas de todos os tempos.

Havia Cassiano Gabus Mendes que eternizou seu estilo, visto o remake de Ti Ti Ti considerado o melhor ibope da casa, graças a capacidade de Maria Adelaide Amaral. Que Rei sou Eu, uma fabula que revolucionou a TV.


Mas temos Gloria Perez e Agnaldo Silva. Na minha opinião grandes escritores com egos tão enormes que as vezes suplantam seus talentos. É inegável que escrevem bem e atraem atenção do publico, mas a vida pessoal , os palpites e pitacos dados nos bastidores tiram um pouco do encanto das suas tramas. Acho que quando um autor está em trabalho, com uma novela sendo exibida, simplesmente deve virar um fantasma. Não é certo ele querer disputar os holofotes com ele mesmo.

Mas não é só de Globo que a teledramaturgia sobrevive. Outras emissoras arriscaram nesses anos todos com produções mais “pobrezinhas” e que de certa forma ganharam o gosto do grande publico. A Rede Manchete talvez tenha sido a que mais incomodou a poderosa Rede Globo. O SBT, com “Éramos 6” deu um grande passo, mas ficou nisso. A Rede Record, que investiu milhões de reais acabou por sucumbir a produções chatas, e sem sentido.

Para finalizar o post de hoje falo da grandes obras literária adaptadas com muito esmero como “ O tempo e o Vento”, “ Memorial de Maria Moura”, “ Os Maias”, e outras criadas a partir de clássicos, como “Primo Basílio”, “ Grandes Sertões Vereda” e inúmeras obras dignas de Oscar, se assim o pudessem premia-las.

Listar os melhores personagens de novelas e minisséries é uma tarefa difícil, por que alguns ficarão de fora, inegavelmente. Então, para não ser injusto, farei uma lista com os meus preferidos.


Odete Roitman (Beatriz Segall ) Vale tudo – 1988

Nazareth Tedesco (Renata Sorrah) Senhora do Destino – 2004

Odorico Paraguaçú (Paulo Gracindo) O Bem Amado - 1973

Jacutinga (Fernanda Montenegro) Renascer – 1993

Nonô Correa (Ari Fontoura) Amor com Amor se Paga – 1984

Renato Villar (Tarcisio Meira) Roda de Fogo – 1986

Flora ( Patricia Pillar) A Favorita – 2008

Laurinha Figueroa ( Gloria Menezes ) Rainha da Sucata – 1990

Diadorim ( Bruna Lombardi) Grande Sertões Vereda – 1985

Rainha Valentine ( Tereza Raquel) Que rei sou Eu – 1989

Senhor de Montserrat (Carlos Vereza) Direito de Amar – 1987

Barão de Araruna ( Rubens de Falco) Sinhá Moça – 1986

Lurdinha ( Malu Mader) Anos Dourados – 1986

Ana de Assis ( Vera Fisher) – Desejo – 1990

Catarina Batista (Adriana Esteves) O cravo e a Rosa – 2000
Maria de Fatima Acioli ( Gloria Pire) Vale Tudo – 1988

Barbosa ( Ney Latorraca) TV Pirata – 1988 a 1992

Rafaela Alvaray ( Marilia Pera) Brega e Chique – 1987

Florisbela Freire/Mosca ( Marco Nanini) Um Sonho a Mais – 1985

Dona Beija ( Maitê Proença) Dona Beija - 1986

Sinhozinho Malta ( Lima Duarte) Roque Santeiro – 1985

Ilka Tibiriça ( Cassia Kiss) Fera Ferida – 1983

Dona Armênia ( Araci Balabanian) Rainha da Sucata – 1990

Tancinha (Claudia Ria) Sassaricando - 1987

E por aí vai. São milhares de bons personagens, inesquecíveis. Talentos que nossa TV brasileira criou e usufrui, eternizando-os em grandes obras.

Boa quarta –feira...abração

8 comentários:

Tathiana disse...

Boas recordações... Algumas eu não cheguei a ver, mas já ouvi falar, claro. Hoje, quase nada me atrai na TV aberta...
Bjs.

Autor disse...

Tão legal esse post e sua visão sobre tv.
Embarquei legal nessa viagem.
Delicia, viu

Edu disse...

Desculpe, mas fiquei "parado" (como sempre) no silvio de abreu e nem li o resto. Eita menino gostoso, aquele...

Marcos disse...

Olha fiz um tour agora pelo tempo com as suas citações das novelas... e concordo que produções como passione são grandiosas e ficam "tediosas" na mesma proporção.

Eu não aguento mais ver o Tony Ramos berrando... alias to de saco cheio dele... ele é otimo ator... não há duvida...

E Francisco Cuoco tá abobalhado ou é minha impressão...

Abçs

Le Voyeur disse...

é ir lendo e relembrando...
eu sou novo pra recordar tdo. tenho na memoria basicamente da metade da decada de 90 pra ca. e ja é mta coisa!!!

abraços
voy

Arsênico disse...

Este post sobre teledramaturgia talvez seja de longe o que eu mais adoro...

Primeira novela que me lembro foi Tieta... e outra em que na abertura aparecia um homem nú e a música embalava [pelado pelado... nú... com a mão no bolso]...

Felizmente em meio a tanto desastre na programação de nossas emissoras... este produto tenha dado tão certo!!!

Só espero que os autores consigam retomar aquele brilhantismo de antes como você mesmo descreveu no post... é triste ver que a imaginação de ótimos autores do passado tenham se limitado nos últimos tempos!!!

E apesar da prepotência de alguns autores... "Caminho das Índias" foi vencedora do EMI de melhor novela...

***

aBraços!


;-)

Antonio de Castro disse...

parei td qd vi q o Viva vai passar Vale Tudo. eu tenho a maior vontade de assistir. e ainda por cima num horário q dá p td mundo.

manoel carlos vai ser lembrado p sempre por História de Amor, Por Amor e Laços de Família. Não importa qts "páginas da vida" de merda ele fizer.

odeio o agnaldo silva e a glória perez.

vc esqueceu aí do Walcyr Carrasco q tem ganhado importância com umas novelas ruins, mas q agradam (salvo O Cravo e a Rosa, q é ótima)

tenho q lembrar tb do João Emanuel Carneiro, o unico q me motivou a ver novela desde 2002 (A Favorita, Cobras e Lagartos e Da Cor do Pecado)

Roque Santeiro é a melhor novela ever!

Saulo Taveira disse...

Eu sinto tanto não ter visto boa parte desses encantos de produções. Já fomos mesmo número 1. Torço pra que a qualidade volte a superar os rostinhos bonitos.

Ótimo post.

Abraços.