UM MENINO EXAGERADO

Difícil mensurar o que é mais interessante nessa vida, vive-la com cautela, ser um individuo linear, sem grandes arroubos, ou meter as caras e viver 100 anos em 1.
Não fui e nem sou fã de Cazuza, mas isso não quer dizer que não admire o que fez e o que criou, nos seus 32 anos de vida.
Quinta-feira passada, a Globo apresentou o especial “Por Toda a Minha Vida”, dedicado ao Cazuza. Fiquei impressionado com a qualidade da produção, as verdades antes guardadas, despejadas ao público.
O que se viu foi um Cazuza, talentoso, temperamental, mimado, enlouquecido e com um enorme papel social. Viver a vida como ele, chega a ser tentador. Meter as caras, não levar desaforo para casa, e deixar com que outros se preocupem, enquanto se aproveitava cada gota de vida que lhe é concedida, sem dúvida é inspirador.
Não dá para imaginar Cazuza com 51 anos. Mesmo que a Aids não o tivesse acometido, e levado prematuramente, talvez as drogas o fizessem, o alcoolismo, ou um acidente fatal. O que se enxerga em pessoas como ele, é a ânsia de viver tudo ao mesmo tempo, e passar sobre outros como rolos compressores. Isso torna difícil a convivência, por que é insuportável viver acelerado as 24 hs do dia.
Seu papel social em escancarar ao mundo sua doença, fez com que gerações de pais, avós, adolescentes entendessem o que era a Aids. Aparecer cadavérico numa entrega de prêmios, pouco tempo antes de morrer, não só foi chocante, como extremamente esclarecedor. Nesse parâmetro, tiro o chapéu, e o aplaudo.

Já vi jornalistas criticarem Cazuza, dizendo ser uma péssima influencia para adolescentes. Aí defendo sua memória e digo que hoje em dia, não é a atitude irreverente de Cazuza, sua superficialidade com os problemas, drogas, sexo livre e etc, que podem corromper os jovens, e sim o que existe hoje, já, neste exato momento, o descaso com o povo. A violência social, psicológica, patológica faz um mal muito maior a um adolescente do que saber que Cazuza fumava maconha livremente onde quer que estivesse, não se cuidava com sexo, amava meninos e meninas. Não sejamos hipócritas de depositar na memória de um artista as mazelas sociais de hoje.
O bom em ser artista neste caso, é que o legado permanece, e por décadas as pessoas o lembram, comentam e cantam. Enquanto sua mãe Lucia Araújo, que notoriamente não carrega remorsos, estiver viva e sempre acendendo a chama da sua lembrança, Cazuza permanecerá atual. Morrer no auge da carreira, eternizando beleza, juventude, sem esperar uma possível decadência, são fatos que transformam o artista em mito. Nisso temos exemplos de sobra, que o diga a memória de James Dean, Marilyn Monroe, Janis Joplin e tantos outros que marcaram presença nesse mundo.
Fica o pensamento, até onde vale a pena não ter limites?

Abração, boa semana a todos.


4 comentários:

Mike disse...

Eu simplesmente adoro o Cazuza e, levando em consideração o talento dele, sempre fui muito curioso para saber como o estilo dele (musical) teria evoluído ao longo de sua vida...

Anônimo disse...

RAFAEL, nada pode destruir um bom pensamento, uma visão real e ao mesmo tempo sonhadora da vida.
você conseguiu mostrar o que admira sem precisar dizer que é um seguidor das atitudes de cazuza.
mesmo sem ter lido mais postagens suas já me idendifique com seu ponto de vista.
FERNANDA
meu e-mail é este: fe_iloveyou@yahoo.com.br

Guy Franco disse...

É incrível como este post, de certa maneira, conversa com o anterior...

M. disse...

Na minha humilde opinião, o cazuza tem esta notoriedade por causa do seu lado artista. Centenas de pessoas as quais denominamos "vítimas" da aids estão agonizando pelo país a fora e não estão sendo santificadas como ele é. Novamente eu digo, ele é "vítima" porque é artista. Um outro exemplo é o Fábio Assunção, que se revelou viciado e todo mundo ficou com pena dele.

Acho que existem várias formas de ultrapassar os limites. Voce pode ultrapassar os limites, ainda obedecendo outros limites. Só que quem os estabelece é a consciencia de cada um. Eu o vejo como um exemplo sim, um exemplo de como uma pessoa jovem, bonita, sadia e talentosa pode acabar com a própria vida.

Se for para a sociedade preservar algo de bom dele, preservem a sua arte e só.

Abração Jamal!