MEMÓRIAS

Lembro-me perfeitamente de uma fase da infância onde imaginava como seria quando estivesse adulto. Claro que como toda criança o máximo que enxergava do futuro era um período tão curto que 20 anos já era ser adulto.

Apanhei algumas vezes! Do meu pai só uma que me lembro, por causa do meu irmão. Alias, só levava bronca do meu pai por conta de um irmão mais velho,  bem ladino...rs rs rs...que nos metia sempre em encrenca ( eu e minha irmã).

Um dos sopapos que levei certa vez da minha mãe ( ela não batia, fazia escândalo apenas) foi por ter pegado um pacote de bolacha recheada de morando, umas 30 ou 40 unidades e comido todo o recheio. Claro que no lugar passei margarina, pensando na minha inocência que ninguém perceberia. Além das bolachas ficarem ruins, amoleceram tudo...

Aos sete anos tive hepatite. Fiquei amarelo e fraco, por isso não precisei mais ir à escola do mês de outubro em diante. Foi uma gloria, que logo percebi não valer tanto a pena. Era obrigado a ficar em casa deitado de repouso sem poder me mexer. Diziam que o fígado se dissolvia caso fizesse esforço. Qual esforço uma criança de sete anos poderia fazer para correr risco de vida? Sei lá, apenas me recordo que um sujeito algumas ruas acima da minha morrera na mesma época de hepatite. Foi concretar uma laje e beleléu, empacotou!

Era tão mirradinho que cabia naquele bagageiro estranho que os Fuscas tinham dentro do carro. Meu lugar era ali, como um cãozionho...rs. Diziam que era uma criança chata, mas eu me achava o máximo. Tinha uma voz fina e estridente, que enchia o saco. Ahhh, só pra completar sobre apanhar, que citei ali acima, quem mais me batia eram meus irmãos! E sempre me calavam com alguma chantagem. Adoravam, olhar para mim e dizer: ihhhh, vai chorar, olha lá, ele vai chorar....eu me debulhava em lagrimas.

Enquanto fui criança e não entendia o que era a vida, meus irmãos disseram que havia sido adotado, que não era filho legitimo dos meus pais como eles. Tinha sido encontrado embaixo de uma folha de bananeira na sarjeta. Não entendia, por que  ao mesmo tempo que diziam isso, ouvia minha mãe contando do dia do parto e de quando cheguei em casa vermelho como uma pimenta, recém nascido. Era o mesmo conflito em tentar entender se o mundo tinha surgido de Adão e Eva ou éramos descendentes de macacos. Confesso que isso me perturbou muito tempo.

Tinha uma pedra branca pequena de mármore Carrara que chamava de “ourolito”, quem a possuísse, tinha poderes, e por isso, meu irmão sempre a roubava de mim. Minhas pernas doíam muito, e minha mãe dizia que era por que crescia rápido demais. Ela passava um remédio chamado “santinho” à base de canfora e enrolava cobertores. Assim, depois de um tempo, a dor passava. Não comia purê de batatas, tinha nojo. Não comia margarina ( até hoje não como) e tinha cara de “cuminho”...o que é isso? Não sei, meus irmãos talvez um dia expliquem.

Mas eu gostava de família. Adorava quando minha avó ia para casa do meu tio aos domingos. Ia com ela. Apesar dos primos terem uma diferença grande de idade eu sempre tentei ser amigo. Tenho apenas uma prima mais nova, o restante são bem mais velhos. Na infância essa diferença é enorme, hoje, já adulto, não haveria problemas, se todos não fossem tão distantes.

Não gostava de beijo no rosto, limpava sempre. Havia uma tia-avó que me amava, que fazia creme de sagú e bolo sem nome para mim. Quando fiquei adolescente fiz um retrato a grafite dela, que ficou lindo. Esteve pregado, talvez ainda esteja, em seu apartamento enquanto o frequentei. Suas filhas enlouqueceram no sentido medico da palavra, e não temos mais contato. As vejo pela rua, mas são tão alienadas ao mundo que nem vale a pena conversar.

O único bicho de estimação da infância era da minha avó. Um canário hibrido chamado “bigulinho”. Era bichinha, porque certa vez colocaram uma fêmea pra ele e no dia seguinte e encontramos estirada no fundo da gaiola quase morta. Deu uma coça terrível nela. Nunca mais tentaram nada. Ele comia bala da boca da minha irmã.

Com sete ou oito anos perguntei para minha mãe o que era masturbação. Ela mandou que perguntasse ao meu irmão (6 anos mais velho). Ele me mandou a merda, e disse que procurasse no dicionário. Não entendi nada do que dizia o verbete. A primeira mulher nua que vi foi Sonia Braga, numa playboy do meu irmão.  O primeiro filme com teor sexual que vi foi o “o Bem dotado Homem de Itu” lá por 1982. Meus pais saiam para jogar bingo e minha avó (ocupada em cuidar de mim, dormia cedo) e lá ia eu ver Sala Especial na Record. Como a maioria dos garotos da minha geração, a inocência durou até uns 13 ou 14 anos.
A FOTO AINDA EXISTE!!! RS
Na adolescência me colocaram o apelido de pastelão. Imagina que quem fez isso era conhecido por “cranha” ( para quem não sabe é o sinônimo de sujeira)...talvez fosse um menino desajeitado.

Um dia, uma prima morreu, e foi o primeiro contato com a dor da perda que tive. Tinha 5 anos, e me lembro dos choros, das lamentações das terríveis histórias contadas a respeito de seu acidente. Minha mãe não nos poupou disso.

Nem por isso cresci frustrado. Apesar de ter tido uma infância normal, e um começo de adolescência tranquilo, por muitos anos senti um misto de abandono e solidão. É comum esse sentimento em aquarianos. Quando tomei ciência de quem eu era, tudo entrou nos eixos.

Recordações da infância são um folego para mim. Minha história me alimenta para que eu trace o futuro. Não vivo do passado, apenas respeito cada dia de um tempo que me trouxe até aqui.

Abração a todos.

6 comentários:

Ludmilla Russo disse...

Sensacional este post, Rafa.
Engraçado como a gente consegue ir visualizando cada situação que você descreveu ali. Cheguei a sentir uma nostalgia que nem era minha.

Boas recordações!

Bjs

Gera Souza disse...

Adoro memórias e autobiografias Rafa. Acho um barato quando você consegue se lembrar de situações com riquezas de detalhes, fazendo com que a gente viaje! Minha mãe também passava "santinho" em mim...hehehehe
Acho que somos de epocas bem próximas!
Adorei!
Abração

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Maavilhoso querido ... feliz são os q têm história para lembrar e contar ...

"Não vivo do passado, apenas respeito cada dia de um tempo que me trouxe até aqui."

Tb sou assim ... Sábado completam-se 02 anos da partida da mamys ... e a vida continua ... mas com saudades ...

Beijão

Rafael Leoni disse...

é Paulo....temos que continuar. No próximo dia 16 faz o primeiro ano que a minha se foi. Uma sensação ainda muito esquisita.abç

Homem, Homossexual e Pai disse...

Parabens! um texto muito muito muito divertido! As dores do crescimento (além daquelas de suas pernas) são sempre divertidas e nos trazem saudades! imagino que este pegueno texto poderia se desdobrar em muitos posts! pense nisto! Senão eu roubo seu "ourolito"! rsrsrsrs abs!

jair machado rodrigues disse...

Meu mui estimado amigo Rafael...tenho certo medo de falar do passado, mas vivo falando, digo, escrevendo no meu blog, mas como escreves, melhor, falas aqui é comovente e belo e engraçado e amoroso...acho família a coisa mais importante, ter vivido com meus irmãos, com meus avós, que morei um período,meus tios, os primos, a infância...adorei a história do 'bigulinho', eu tive um gato, o 'mimoso', que todo mundo falava, mas eu não conseguia entender, talvez nem eles, mas o 'mimoso' nunca se afastava de mim e miava o tempo todo, até eu voltar da escolinha, bom, isso não é motivo, até hoje acho que eram indiretas para mim rs...é um tempo de descobertas, medos, amizades gratuítas e felizes, correria na rua atrás de uma bola, enfim meu querido amigo, também acredito nisso: "Recordações da infância são um folego para mim. Minha história me alimenta para que eu trace o futuro." Adorei este post.
ps. Meu carinho meu respeito e meu abraço.